25 de julho de 2025

Entre manhãs


6h
Pranto.
Na cama,
a solidão voa.
O vento entra —
e com ele,
aquele velho medo
de amar
ao encontrar.

7h
A coragem
não chega.
A procrastinação,
sim.
E eu fico aqui,
na certeza
de que lágrimas
vão rolar.

8h
Me mexo,
estico,
bocejo.
Sento.
Me vejo.
Me abraço.
Me beijo.

Me perdoo —
e sigo:
me vendo,
me vivendo,
me sendo.

VIVA.

Depois das 8h
Cochilo.
Acordo.
Me mexo de novo.
O dia ainda pulsa
e eu, apesar,
ainda danço —
entre manhãs
e vontades de recomeçar.

7 de julho de 2025

I e II

 Sentir, sem querer

Domingo lento, alma vazia,
escrevo assim, em melancolia.
No fundo, Nina Simone…
"Feelings".

No YouTube, um velho vídeo.
E no olhar dela, um abismo contido.
"Feelings" — sentimentos.
Mas… que sentimentos eram aqueles?

Guardava?
Disfarçava?
Se segurava?

E quando o piano vem,
é flor da pele.
É gemido esquecido.
É dor sem nome.

Era amor?
Raiva?
Saudade?
Ou quem sabe…
uma sociedade?

Porque pra uma mulher negra,
retinta como ela,
os sentimentos são maiores.
Mais viscerais.
Mais antigos.
E, por sua vez,
infelizmente…
acostumados.

E a voz de Nina falha,
como se engasgasse na despedida.
O rosto cansado canta “Feelings”,
mas esse sentimento…
ah, esse eu não queria sentir.

Queria ser fria,
feito pedra no meio da rua.
Queria não ter te encontrado,
nem saber do gosto do teu nome.
Queria não ter te conhecido,
quem sabe… nem ter existido.

Porque sentir dói,
e nesse domingo lento,
tudo em mim era silêncio,
menos a saudade —
essa, gritava.

Mas apesar de tudo,
de toda essa vontade de não,
sei que sempre haverá esse sentimento.
Porque é ele —
por mais que machuque —
a base de tudo.

É ele que move,
que marca,
que faz viver.

E quanto mais a gente se aproxima,
mais ele cresce,
mais ele arde.
Porque o sofrimento vem
do quanto a gente sente.
Do quanto se entrega.
Do quanto… é real.

Somos de emoção.
Feitos de sentimento.
Mesmo quando a gente…
só queria esquecer.

E o mais curioso,
é que…
apesar de tudo isso,
de toda dor, de toda memória,

dependendo de tudo…
a gente encontra alguém.
Um outro alguém.
E sente tudo de novo.
De novo.

 Domingo lento, alma vazia,

escrevo em melancolia.
O som que embala o coração
é Nina Simone em canção.

No YouTube, um velho vídeo,
seu olhar vagueia, é um enigma antigo.
"Feelings" soa, palavra sentida...
em português: sentimentos, ferida.

O que será que ela escondia?
Guardava dor? Disfarçava alegria?
Será que lutava pra não se entregar,
pra lágrima alguma no palco rolar?

Quando o solo do piano vem,
parece a flor da pele, um gemido de além.
Esquecido, contido, mas tão verdadeiro...
será que era amor? Raiva? Um desespero?

Ou seria saudade? Ou pura ansiedade?
Quem sabe até... uma sociedade?
Porque pra uma mulher negra e retinta como ela,
os sentimentos não vêm de janela.

São mares profundos, são fogo e são vento,
são grandes demais pra caber num momento.
São aflorados, sim — mas também silenciados,
infelizmente, por tempos acostumados.

Parte II – Sentir, sem querer

E a voz de Nina falha,

como se engasgasse na despedida.
O rosto cansado canta Feelings,
mas esse sentimento…
ah, esse eu não queria sentir.

Queria ser fria,
feito pedra no meio da rua.
Queria não ter te encontrado,
nem saber do gosto do teu nome.
Queria não ter te conhecido,
quem sabe... nem ter existido.

Porque sentir dói,
e nesse domingo lento,
tudo em mim era silêncio
menos a saudade —
essa, gritava.

Mas apesar de tudo,
de toda essa vontade de não,
sei que sempre haverá esse sentimento.
Porque é ele —
por mais que machuque —
a base de tudo.
É ele que move,
que marca,
que faz viver.